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Universidade Federal do Ceará
Museu de Arte da UFC – M A U C

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Exposição 1961.02 – Pinturas de Antônio Bandeira – 15/07/1961

Abertura da Exposição:  Pinturas de Antônio Bandeira

(Transcrito do Catálogo)

Nada melhor, para o Museu de Arte da Universidade do Ceará, do que iniciar suas atividades com uma exposição de Antônio Bandeira. Digo iniciar suas atividades porque acredito que o MAUC está convencido de que um museu não é um órgão estático, parado, depósito de quadros sem vida e sem calor. E assim, inaugurado há poucos dias, o mais jovem museu do Brasil já começa a procurar agitar a pacata cidade de Fortaleza – mostrando, no espaço de 30 dias, os óleos e os guaches de um dos mais discutidos e anticonformistas dos pintores brasileiros. E Deus queira que esta primeira amostra do monstruoso Antônio faça com que os últimos remanescentes das tribos alencarinas empunhem tacapes (com licença da palavra e com homenagens aos pioneiros de 22) e promovam motins, fazendo com que os seus gritos de cólera ou de louvação ecoem nas quebradas da verde serra, com o romantismo solene das brigas provincianas.

Nada melhor do que uma exposição de Bandeira para mostrar que o Museu de Arte da Universidade do Ceará nasceu vivo e promete endiabrar-se. Pois o fato é que, nesta sua terra de frases feitas, de paisagem serena, de alencarinos mares bravios e monótonos cantos de jandaia, Bandeira sempre foi um símbolo de agitação. Quando aqui chegou, pela primeira vez, vindo de Paris, com legendas fantásticas aureolando-lhe o nome e o cavanhaque – lembro-me bem da barrasca que os seus quadros provocaram entre os intelectuais e o povo em geral, uns querendo adivinhar o que eles significavam, outros liquidando-os com um simples olhar desdenhoso, e outros ainda, em mirrada mas significativa minoria, a justificar as suas atitudes, o seu modo de ser e de sentir as cousas.

E no meio de tudo, a figura do artista, silenciosa, às vezes risonha, a olhar para todos com simpatia, intimamente gozando aquela agitação que provocara. Nesse tempo não pensávamos em museu, nem sequer numa pequena galeria – como pensar nessas cousas se até mesmo a Sociedade Cearense de Artes Plásticas agonizava aos nossos olhos? Foi aquilo uma simples aventura – como aventura foram mais tarde as exposições de Aldemir e de Sérvulo Esmeraldo, visitadas por um público que sempre visita exposições mas sem nenhuma penetração no espírito do povo. Foi necessário que viesse a Universidade, desse um banho de otimismo na alma do povo, realizasse muitas cousas antes para que , de um instante para outro, surgisse o Museu. Museu que na verdade ainda está a se formar, mas que é admirável justamente por isso, porque vai começando da estaca zero, com quadros e imagens emprestadas, com arte popular pela primeira vez apresentada como cousa de valor, para grande surpresa de mestre Chico Santeiro, e Francisco Silva, que jamais pensaram que os bonecos que faziam e as serpentes que pintavam um dia seriam admirados por generais e doutores, todos neles reconhecendo valores que os seus próprios autores ignoravam completamente.

E vem o Museu e convida Antônio Bandeira para fazer uma amostra dessas telas que representam o melhor de sua última fase de pintura. Depois de se apresentar nos mais destacados centros de arte do mundo, vem o Bandeira, humildemente, deixar em sua terra uma semente que certamente brotará. Aqui ficará uma sala sua, que será sempre renovada porque tanto o Museu como o Bandeira não estacionarão nesse começo. Amanhã teremos outros quadros seus, não para substituir os que hoje são expostos, mas para aumentar a coleção que para nós, por todos os motivos, será sempre preciosa.

Nesta exposição inaugural do Museu de Arte do Ceará sei que deveria fazer uma apresentação do artista, dizer dos seus méritos, das vitórias que alcançou, do sucesso que vem tendo aquém e além mar. Mas para que -se vocês todos sabem quem é o Bandeira, se páginas atrás há interpretações de sua arte, há poemas e notas biográficas, há até um depoimento do artista que é, em prosa, maravilhosa pintura? Deveria eu também dizer dos propósitos do Museu de Arte da Universidade – mas isso vocês entenderão melhor vendo que, com a exposição de Bandeira, o MAUC está imbuído de um espírito novo, como tudo o que é iniciativa da Universidade. A única cousa que poderei destacar é que, com a exposição de Bandeira, está começada a revolução. Que os pacatos filhos da terra da luz se preparem para as ofensivas que daqui por diante virão, oriundas dêste museu em embrião que dia a dia terá de crescer e solidificar-se. Outras exposições virão, outras iniciativas se sucederão a esta. O melhor de tudo mesmo é ter sido o movimento iniciado com o nosso Antônio Bandeira, ele próprio um símbolo de renovação que deverá ser, e certamente será, o símbolo representativo do Museu de Arte da Universidade do Ceará.

Fran Martins


Catálogo da Exposição Bandeira 1961

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