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Exposição 2010.08 – Catadores do Jangurussu – Descartes Gadelha – 18/10/2010

(Transcrito do Folder)

Arte e Restos Humanos: O Jangurussu de Descartes Gadelha

As regras da museologia proíbem o toque nos quadros de uma exposição. Nada impede, no entanto, que a obra supere os limites dos chassis, que as tintas escorram das telas e instalem o desassossego. É o que acontece com os “Catadores do Jangurussu”.

Não deve ter sido fácil para o artista esta convivência com situações limites para o ser humano. O resultado é desbragadamente expressionista e tem uma força que pode vir, talvez, da incompletude das imagens, que somos obrigados a refazer com nossos códigos de bom gosto, e com nosso humanismo ocidental.

Tudo aqui é excessivo, chocante, uma sucessão de socos no estômago, que nem todos aceitam de bom grado receber.

Ele pinta o abismo da condição humana, agravado pela ganância que leva à concentração  perversa da renda e ao “apartheid”social, que vem sendo combatido no Brasil, pelas políticas públicas que passaram a focar os excluídos, e pela sociedade civil que passou a incorporar práticas mais responsáveis e solidárias.

A reciclagem, por exemplo, levou à desativação do lixão do Jangurussu. Antes disso, Descartes esteve lá, viu urubus rondando a área degradada, cães disputando restos e homens e mulheres rebaixados à condição sub-humana.

Esta exposição é de pintura. A indignação move o artista, como exercício de cidadania. O Jangurussu dele não estetiza a miséria. Fica difícil degustar este prato que ele nos oferece. O lixão existiu por conta de nossa omissão. E aqui passa a ser visto como num “travelling”, a técnica cinematográfica de varredura. Tem-se o panorama e o impacto dos detalhes. No meio dos escombros, a epifania de uma Pietá. O sujo torna-se matéria estética, não de forma meramente conceitual, de um tardo-dadaísmo ou de uma aposta no efêmero. O estranhamento vem da forma como aceitamos este jogo. Este espaço [e um campo de batalha, onde se constrói o manifesto do artista, e a nós cabe o papel de coro da tragédia.

Descartes Gadelha lembra o que queremos esquecer. O incômodo [e tão grande que provoca náuseas, mas estamos falando de grande arte e de restos humanos. Levará ainda muito tempo para que possamos fruir tudo isso como algo que não acontece mais.

Ainda bem que isto é arte. A vida consegue ser, quase sempre, ainda mais dramática.

Gilmar de Carvalho


Descartes Gadelha

“Não quero pintar a paisagem do lixo. Quero compreender a alma das pessoas que sobrevivem do lixo”.

Às vezes os desenhos ou pinturas não saiam tão bem feitos, mas às vezes alguns saíam relativamente bem realizados. Na ocasião não percebia as questões técnicas e estéticas porque estava vivendo emocionalmente com a temática. Só paro um trabalho quando a emoção estanca. Depois de um determinado período, quando revejo o trabalho, o mesmo já não me toca, porque a emoção do fazer já não existe mais. Apenas observo a pintura como não feita por mim.

Esse trabalho foi iniciado no começo da década de 1980, lá no aterro. Demorei nove anos para expô-lo porque sempre achava que tanto o aspecto temático quanto o pictórico o público não ia gostar. Mas foi o prof. Pedro Eymar Barbosa que me estimulou a realizar a exposição no MAUC no ano de 1989.

Para a realização do trabalho foram transcritas fitas K7 e, posteriormente, sistematizadas de forma resumida para compor os textos, assim como as observações repentinas e motivadoras. Foram momentos únicos de convivência, segundo os quais as obras foram realizadas.

O pintor como o escultor na realização de uma obra mergulha no espaço da tela como estivesse numa batalha armada, em pleno front. Luta incansavelmente. No final a arte vence e o artista tomba.

Fortaleza, 28 de fevereiro de 2010
Descartes Gadelha

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