Área do cabeçalho
Portal da UFC Acesso a informação da UFC Ouvidoria Conteúdo disponível em: Português

Universidade Federal do Ceará
Museu de Arte da UFC – M A U C

Área do conteúdo

Exposição 2021.3 – Câmara Perphyry – 15/06/21

(Transcrito do Catálogo)

Peça gráfica da exposição "Câmara Perphyry", mostra individual da artista Cecília Bichucher

Quero inicialmente dizer da surpresa, e porque não dizer, do prazer, em me ver colocada na condição de curadoria dessa exposição onde o feminino é exposto na sua força, na sua dor, no seu abandono e ano mesmo tempo, na sua suavidade, pela arte e o domínio da aquarela, desta artista que é Cecília Bichucher. Arte para mim é aquilo que vem da alma quando ela expressa e materializa os sentimentos, transforma e denuncia uma realidade. Independe da técnica e da forma como o faz. Há anos atrás, ouvi do professor Evandro Jardim, um comentário, referindo-se a um trabalho que estava analisando, que a arte não prescinde da estética. No meu entender, uma estética que pode até vir de uma desarmonia ou de uma imprecisão técnica. Uma vez que, são mais os contrastes que nos levam à sua fruição.

Nícia Bormann


Após uma visão quase onírica da Câmara Pórfira, aposento em Constantinopla no qual dormiam imperatrizes prestes a dar à luz suas estirpes, suntuoso, revestido de pedras vulcânicas vermelhas, ornando de sedas e joias finas, Cecília Bichucher inspirou-se para pintar estas aquarelas. Mulheres sobre a cama, deitadas, debruçadas, recolhidas, dissolvidas, quase a dar à luz. Mulheres transparentes que sonham, esperam, choram, sofrem ou gozam. Umas são prisioneiras das grades da cama, outras parecem ter asas e voar. Todas estão em momentos íntimos. Umas parecem machucadas, violentadas, escorre um fio de sangue, outras foram deixadas sozinhas, abandonadas. Parecem fruir da solidão na qual encontram seus segredos ou, mesmo, sua libertação e felicidade. Penetradas pela água e por vermelhos ígneos, sangrentos, pela alvura de lençóis e paredes, por noites tênues dissolvidas em cinza, essas mulheres quase abstratas se deixam penetrar também por nossos olhos, que trespassam sem encontrar matéria. Umas se entregam.

Fazem parte de toda uma tradição pictórica de mulheres deitadas no leito – majas desnudas ou vestidas, ninfas, vênus adormecidas, odaliscas à brisa de leques… Corpos quase sempre eróticos, prontos para o amor, para a contemplação sensual, também corpos fantasmais, idealizados, puros ou assustadores, feitos de ossos, carne, pele. Mas as mulheres de Cecília Bichucher parecem mais próximas da alma do que do corpo. Mais perto do murmúrio que do grito. São tênues sugestões. Distantes da maternalidade, da volúpia, da inocência, do mundano, até mesmo da sua divindade, são uma essência feminina livre, “longe de tudo, dos acertos, dos erros, dos julgamentos, da cozinha, dos filhos, da filosofia”, como diz Cecília, para “dar à luz a mim mesma… em silêncio”.

Ana Miranda
16 Fevereiro 2021


Dar-se à luz

Descansar, relaxar, acalmar o corpo e o pensamento… deixar-se ficar só… modos de parar, às vezes, desistir… às vezes, dar-se colo. Nesses tempos tenho pensado e praticado um pouco isso, mesmo com todas as dificuldades que a rotina impõe. O auto cuidado em se acolher e apenas parar o corpo, surgiu também em imagens que Cecília me apresentou, em setembro de 2020, sobre algumas aquarelas que vinha produzindo. Logo depois realizamos uma conversa pública intitulada Deixada Sozinha, com imagens fluidas de mulheres deitadas em camas líquidas com algum tom entre vermelho e rosa. O tempo foi passado dentro dessa pandemia e seguimos em conversas sobre sua produção, trocas que vêm ocorrendo antes mesmo desse vírus nos colocar em distanciamento.

A espera da mostra, que estava prevista para a semana do 8 de março – dia internacional da mulher, seguia aqui, ainda em espera, em casa, em lockdowm. Um tempo suspenso, completamente incerto e, ao mesmo tempo, aqui dentro fervilhando de vontade de recomeçar a vida, que há mais de um ano segue nesse tipo de retiro pandêmico. Um tempo de recolhimento, de reflexão. Junto a essa espera, o cronograma dos museus também seguiu o movimento e adiou mais e mais a abertura de novas exposições. Que tempos!

No domingo de Páscoa, de 2021, veio fortemente o desejo de escrever este texto, pois simbolicamente era dia de renovação, renascimento, vida nova” Pensando nisso, lembrei do quarto vermelho, da Câmara Pórfira que Cecília me apresentou, do lugar por onde se espera o nascimento de uma nova vida. Esse quarto talvez possa ser um corpo também, que mesmo depois do nascimento segue à espera de que algo novo aconteça. Nesse 4 de abril, domingo de Páscoa, também completamos um ano de saudade da pessoa que possibilitou nosso encontro, a Bia, uma mulher que entrelaçava vidas. Talvez tenha vindo tudo junto nesse dia, mesmo, muita potência de vida, de amor.

Algo comum entre as conversas com Cecília e a amostra Útero do Mundo, de Ceronica Stigger, fez brotar a vontade desta escrita. Os dias seguiram e fiquei pensando nessa espera, agora em junho de 2021, Cecília prestes a abrir sua primeira exposição individual, um recorte de um longo processo atento e cuidadoso de sua produção. A luz dessa criação abre espaço para refletirmos o quanto as mulheres têm sustentado um mundo que parece, agora, sair aos poucos dessa câmara vermelha de espera e muito sangue.

Carolina Vieira


Expografia e Curadoria
Nícia Bormann

Textos
Ana Miranda
Carolina Vieira

Projeto Gráfico e Produção
Oficina Aberta

Fotografia
Thaís Mesquita


Acervo: 
O acervo da exposição pode ser visualizado na plataforma Flickr, clique na imagem abaixo:

Exposições de reabertura do MAUC | Foto: Ribamar Neto

 


Catálogo da Exposição Câmara Perphyry

Ler mais publicações no Calaméo

 


A Artista – Cecília Castellini Bichucher, Nascida em São Paulo, bacharel em Artes Plásticas, com especialização em pintura, pela Parsons School of Design – Nova York (1985 a 1989). Licenciatura em Artes Plásticas (1986 a 1989) no Bank Street College. Reside em Fortaleza há muitos anos e atualmente integra o coletivo de amigos Grupo Oicos. Já participou de aproximadamente 37 salões e exposições coletivas, dentre as quais destacamos as mais recentes: Monolitos – Instituto do Museu Jaguaribano – Aracati (2020); Bienal Internacional de Grabado y Arte Impreso en Pequeño Formato – Argentina (2019); Adjetivo Feminino – Centro Cultura Belchior – Fortaleza (2019); Migrações – Galeria Pé Palito – Brasília (2018).

Acessar Ir para o topo